Concerto inspirado no livro A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe.
Direção musical de Alfredo Teixeira. Serão apresentadas obras de Alfredo Teixeira, Gideon Klein, Stephen MecKay, John Cage e Fernando Lopes-Graça.
Em palco Yuri Marchese (guitarra elétrica), Luís Pacheco Cunha (violino), Cátia Santos (violeta) e Catherine Strynckx (violoncelo).
Em máquina de fazer minúsculas (2025), revisita-se o universo do romance a máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, não para o traduzir, mas para o escutar por dentro — como quem procura a respiração subterrânea de uma escrita que fez da vulnerabilidade um lugar de revelação. O título da obra inverte ironicamente o da narrativa: se a “máquina” de Valter Hugo Mãe é a engrenagem social e política que apaga diferenças e formata vidas, a do compositor fabrica minúsculas, isto é, gestos de atenção, fragmentos de memória, pequenas resistências contra o esquecimento e a violência da normalização.
A obra nasce desse confronto entre a máquina e o humano, entre o ruído e o silêncio. A guitarra elétrica — instrumento da modernidade urbana e da cultura pop/rock — e o trio de cordas — veículo da tradição e da interioridade — corporizam musicalmente esse atrito essencial. O timbre elétrico traz consigo a memória da juventude e da rebeldia, mas também o eco da voz do passado de Valter Hugo Mãe, como vocalista de um grupo pop/rock: a voz que antes se projetava em amplificação torna-se agora corpo ausente, substituída pela vibração elétrica que sobrevive como fantasma. A escrita musical, que busca ser expressão de uma sensibilidade espiritual e memorial, encontra neste confronto um campo fértil: entre a eletricidade e a madeira, entre o circuito e o arco, entre o som que se impõe e o som que se retrai. A estrutura tripartida da obra — fotossíntese das tardes, quase a tombar no mar, morrer inteiro — desenha um percurso que é também o de António Jorge Silva, o protagonista do romance: a lenta digestão da vida, a vertigem da perda, a reivindicação da morte enquanto acontecimento inteiro.
Em fotossíntese das tardes, a música respira o tempo da retrospetiva, a luz filtrada da memória. Quase a tombar no mar propõe o desequilíbrio: o instante entre o que ainda resiste e o que já cede. Finalmente, morrer inteiro não é dissolução, mas fluxo. O carácter estático e extático das texturas dialoga com a memória filtrada de «Verde Anos» de Carlos Paredes. O silêncio chega como uma ausência inteira, como o reivindica António Jorge Silva. A obra para guitarra elétrica e trio de cordas, máquina de fazer minúsculas, pode ser entendida como uma meditação sobre a condição humana num tempo de desumanização. Tal como Valter Hugo Mãe escreve em registo de minúsculas para fazer jus à trivialidade dos quotidianos e ao que sobrevive fora da norma, o idioma musical despoja-se de grandeza, buscando, na privação, a ferida de transcendência. A música, aqui, torna-se não apenas um eco do texto literário, mas uma extensão ética dele: uma forma de dizer a memória como resistência e a dignidade do que é frágil (nas cordas friccionadas ou dedilhadas, na distorção ou na transparência).
John Cage – Dream
Sorrentino transcreveu para guitarra elétrica a obra de piano Dream, de John Cage. O ambiente desta criação dialoga bem com a obra do Valter Hugo Mãe.
Lopes-Graça – Três inflorescências de velhos apontamentos
Fernando Lopes Graça é um compositor fundamental na cronologia das memórias do protagonista do romance de Valter Hugo Mãe. E esta é uma obra que trabalha muito bem, do meu ponto de vista, o tema da memória.
Mackey – Fusion Tune
A obra tem uma lógica fusional, desenhando-se num ecletismo interessante que evoca gestos de diversos universos musicais, incluindo a cultura pop/rock. Julgo que estabeleceria uma ponte interessante com a fase musical de Valter Hugo Mãe, enquanto cantor da banda “Governo”.
Gideon Klein – Trio
Este trio de cordas foi escrito por Gideon Klein e estabelece nexos muito interessantes com a obra de Valter Hugo Mãe. Composto em 1944, constitui um testemunho singular da força da criação artística em circunstâncias extremas. Klein, jovem compositor e pianista judeu checo nascido em 1919, foi deportado em 1941 para o gueto de Theresienstadt. Este espaço, que os nazis apresentavam como um “campo-modelo” para efeitos de propaganda, escondia uma realidade de privações severas. Contudo, nele floresceu uma intensa vida cultural, graças a músicos e compositores como Viktor Ullmann, Hans Krása, Pavel Haas e o próprio Gideon Klein, que transformaram a prática musical numa forma de resistência e de preservação da dignidade humana.
Escrito pouco antes da sua transferência para Auschwitz e, posteriormente, para Fürstengrube, onde viria a morrer em janeiro de 1945 com apenas vinte e cinco anos, o trio é uma das últimas obras de Klein e condensa a maturidade precoce de um talento interrompido pelo Holocausto. O seu aspeto mais marcante reside no modo como incorpora elementos da música popular morávia. O andamento final, inspirado numa canção tradicional, adquire um valor simbólico particular: nele, o folclore transforma-se em afirmação identitária e em gesto de sobrevivência espiritual, num momento em que toda a cultura judaica e checa era alvo de aniquilação.
Programa
| Gideon KLEIN [Prerov, 1919 – Auschwitz,1945] | Trio (Terezin, 1944) para violino, violeta e violoncelo Allegro Variace, Lento Molto vivace |
| Steven MACKEY [Frankfurt, 1956] | Fusion Tune (1995) para guitarra elétrica e violoncelo |
| John CAGE [Los Angeles, 1912 – New York, 1992] | Dream (1948) para guitarra elétrica solo |
| Fernando LOPES-GRAÇA [Tomar, 1906 – Parede, 1994] | Três Inflorescências (1973) para violoncelo solo Quase prelúdio Quase ária Quase dança |
| Alfredo TEIXEIRA [Lisboa, 1965] | A máquina de fazer minúsculas (2025) para guitarra elétrica, violino, violeta e violoncelo Fotossíntese das tardes Quase a tombar no mar Morrer inteiro |
