“Corpo que Canta”: Mariana Vieira assina a música de uma nova criação de Nataša Šibalić

Espetáculo multidisciplinar é apresentado este domingo, 27 de setembro, às 19h30, no Oculto da Ajuda, em Lisboa, cruzando música contemporânea, voz, movimento, luz e projeção.
Com música de Mariana Vieira e criação e interpretação de Nataša Šibalić, o espetáculo multidisciplinar coloca em diálogo música contemporânea, voz, corpo, movimento, luz e tecnologia, explorando e questionando o corpo e o seu entorno, uma natureza por vezes disfuncional, urbana e mecanicista, através de uma experiência que procura libertar os sentidos e reaproximar-nos do humano.
Com direção artística e voz de Nataša Šibalić, coreografia de Nélia Pinheiro, composição de Mariana Vieira, projeção de Nuno Mika e iluminação de Anabela Gaspar, Corpo que Canta constrói um território cénico onde voz, corpo, música, imagem e luz se relacionam de forma contínua.
Em cena, Maria Nabeiro, ao violoncelo, e as bailarinas Rafaela Nunes e Sara Gomes juntam-se a Nataša Šibalić, numa composição que procura diluir as fronteiras entre concerto, dança, performance e instalação.
O ponto de partida do projeto é a obra En Écho, de Philippe Manoury, sobre poemas de Emmanuel Hocquard, para soprano e eletroacústica em tempo real. A esta obra junta-se Rasgar o Tempo, uma nova criação sonora encomendada à compositora portuguesa Mariana Vieira, para soprano, eletroacústica e violoncelo.
A partir destas duas obras, desenvolve-se uma construção sonora e performativa que inspira o movimento dos corpos numa cenografia arquitetónica de luz, envolvendo intérpretes e público. O dispositivo cénico cria um espaço em permanente transformação, entre o orgânico e o artificial.
Voz humana, corpo e artifício são os elementos centrais desta criação. O espetáculo interroga aquilo que nos atrai, ilude, move ou distancia da realidade digital com a qual cada vez mais nos relacionamos. O corpo surge simultaneamente como presença física, instrumento musical, matéria coreográfica e lugar de confronto com um ambiente tecnológico que o transforma.
Um laboratório entre música, corpo e outras artes
Para Nataša Šibalić, artista vocal com formação lírica e uma carreira dedicada à música de câmara, ópera e outros géneros vocais, Corpo que Canta nasce do desejo de levar determinadas obras para além do formato convencional do concerto.
“Sempre me atraíram as obras cuja dramaturgia interna inspiram a encenação e a possibilidade de sair do formato estrito do concerto.”
A artista procura uma expressão orgânica e multidisciplinar daquilo que a música pode inspirar, convocando outras áreas das artes performativas.
“Voz como veículo que — sempre através da música — transforma e induz poesia, teatro e movimento.”
Corpo que Canta constitui, neste sentido, o primeiro projeto de um ciclo pensado como uma espécie de laboratório, reunindo diferentes disciplinas e artistas em torno da relação entre música, espaço, corpo e imagem.
“Rasgar o Tempo”: a experiência da temporalidade
A nova criação de Mariana Vieira, Rasgar o Tempo, utiliza os poemas Viagens e Desvios, de Ana Luísa Amaral, e Forever – is composed of Nows, de Emily Dickinson.
A compositora parte da experiência do tempo e da possibilidade de colocar em diálogo duas formas aparentemente distintas de o experienciar: o tempo enquanto sequência de momentos presentes e orgânicos e, simultaneamente, a dificuldade da sua passagem perante a incerteza do futuro.
A dimensão musical traduz esta reflexão através da exploração da temporalidade e de processos eletrónicos. Técnicas como a síntese granular, delay e reverberação contribuem para uma disrupção da temporalidade dos eventos musicais, enquanto a escrita oscila entre momentos mais fragmentados e ruidosos e outros de natureza mais melódica.
A voz ocupa, assim, um lugar central numa composição em que o tempo é simultaneamente matéria musical e experiência sensível.
A voz entre o humano e a máquina
Em En Écho, Philippe Manoury explora a relação entre a voz e as novas tecnologias informáticas, partindo da particular complexidade do sinal vocal. Diferentemente de um instrumento no sentido tradicional, a voz combina alturas, fonemas, ruídos e uma permanente variabilidade espectral.
A obra investiga a possibilidade de estabelecer uma relação sensível entre voz e máquina, através da captação e processamento do sinal vocal em tempo real. A sincronização entre voz e computador constitui o ponto de partida para uma exploração de fenómenos como a variação espectral, o reconhecimento de fonemas e outras microestruturas da emissão vocal.
O resultado é uma música construída exclusivamente a partir de sons sintetizados, samples vocais e transformações em tempo real da voz a solo.
É esta relação entre voz, tecnologia e corpo que encontra em Corpo que Canta uma nova dimensão cénica. A investigação musical de Manoury e a nova composição de Mariana Vieira tornam-se matéria para uma experiência performativa onde o som desencadeia movimento, o movimento produz presença e a luz e a projeção transformam o espaço.
Mais do que acompanhar a música, os corpos em cena habitam-na. Corpo que Canta propõe, assim, uma experiência sobre a presença humana num mundo cada vez mais mediado pelo digital. Entre o corpo e a máquina, entre o natural e o artificial, entre o som e o silêncio, o espetáculo procura abrir um espaço de escuta e questionamento sobre a voz, o gesto, a presença e a capacidade de criar relação.


