Ópera – Soror Mariana

Apresentaremos, em estreia absoluta, uma nova ópera do compositor Amílcar Vasques-Dias com libreto de Helena da Nóbrega.

Primeiras apresentações: 16 – 18 de junho 2017 no Convento dos Capuchos, Almada.

Como Nasce uma Ópera

As “Cartas de Uma Freira Portuguesa” ou, simplesmente “Cartas Portuguesas” foram, pela primeira vez, publicadas em 1669.

Este romance epistolar pretendia apresentar as cartas originais contando a verdadeira história de uma freira que se apaixonou por um oficial francês, Noël Bouton, Marquis de Chamilly, mais tarde Marechal de França. A freira, desconhecida de início, seria mais tarde identificada como Mariana Alcoforado, nascida em Beja e filha de Francisco da Cunha Alcoforado.

É incerta a sua história como também não é certo quem escreveu as cartas. Provavelmente, terão sido obra de Gabriel de Guillerages, diplomata e jornalista francês, numa elaborada fraude literária perpetrada sobre um público incauto.

Estão escritas no estilo epistolar de Ovídio e de Abelardo e Heloísa.

Mas talvez haja uma história verdadeira por detrás das palavras de Mariana. A verdade é que o drama se “tornou viral” – as cartas são tão populares que o termo “portugaise” passou a designar uma “carta de amor apaixonada” na França setecentista.

Tão populares que são lidas ainda hoje. Reais ou falsas, contam uma história de amor, universal.

Iremos criar e apresentar, em estreia absoluta, a nova ópera do compositor Amílcar Vasques-Dias e da libretista Helena Nóbrega no Convento dos Capuchos em Almada, a 16, 17 e 18 de Junho de 2017.

 

Na sua apresentação colaboram artistas profissionais:

  • Compositor – Amílcar Vasques-Dias
  • Libretista – Helena Nóbrega
  • Diretor Musical e Coral – Brian MacKay
  • Equipa de Encenação / Movimento – Aldara Bizarro e F.Pedro Oliveira
  • Figurinista – Maria Luíz
  • Cenografia / coordenação – F. Pedro Oliveira
  • Cantores solistas:
  • Mariana Alcoforado – Natasa Sibalic
  • Mariana (menina) – a definir
  • Pai de Mariana Alcoforado (cantador) – Pedro Calado
  • Camponês / ceifeiro (cantador) – a definir
  • Madre Superiora – a definir
  • Orquestra – piano, cordas, oboé, clarinete / sax, percussão – incluindo Amílcar Vasques-Dias, músicos do Quarteto Lopes-Graça, Paulo Gaspar, Adriano Aguiar e outros a definir.
  • Iluminista, Equipa técnica – a definir

 

E artistas amadores, recrutados no Concelho / região:

  • Coro de Noviças
  • Coro de Freiras
  • Coro de Camponeses / Cidadãos de Beja

 

 

SINOPSE

Mariana Alcoforado é conhecida como a freira que escreveu – ou não* – uma série de cartas ao tenente francês Chamilly – que se tornaram famosas em toda a Europa ainda em sua vida e sem que ela o soubesse – depois de com ele ter vivido uma relação amorosa – ou não* –  enquanto freira no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja. Viviam-se os conturbados anos da restauração da independência de Portugal, em que a região do Alentejo foi particularmente protagonista, pois, aí se disputaram importantes batalhas para além de todo o tipo de resoluções e conjuras… A causa portuguesa tinha apoio militar de diferentes reinos – também com problemas territoriais e sucessórios, e em lutas com Castela. Não é, pois, de estranhar que homens estrangeiros se encontrassem no Alentejo e que os conventos não fossem somente locais de viver a fé, mas também locais onde famílias nobres e ricas colocavam as suas filhas.

Esta ópera é uma representação dramática cantada dos amores reais ou fictícios da freira portuguesa e do oficial francês. Mariana Alcoforado é uma jovem mulher, freira, presa às circunstâncias do seu tempo mas capaz de transgredir as regras conventuais (obediência, clausura e castidade).

O envolvimento amoroso é para Mariana como uma ‘causa’ capaz de mudar o sentir da sua vida inútil e solitária. Assim ela o viveu e sentiu. A decepção e desespero que se seguem ao seu abandono e esquecimento, – traduzidas de maneira tão exasperada, comovente e excessiva nas Cartas Portuguesas – são acontecimentos pessoais muito penosos porque Mariana não dispõe de recursos para modificar o decorrer da sua vida – ‘isso’ sim – o mais dramático neste libreto.

Mariana Alcoforado (1640-1723) terá entrado no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, aos 12 anos, professado aos 16 e lá morreu aos 83 anos.

 

*Obra anónima, as Cartas Portuguesas supostamente traduzidas no século XVII em Paris a partir de originais portugueses – desde sempre desconhecidos – só muito mais tarde atribuídas por alguns à freira de Beja, tornaram-se uma obra de referência da literatura francesa, e um caso singular e dos mais curiosos na história literária pelas duvidas que levanta quanto à sua autoria.  Esta obra traduzida será objeto de apropriação para a autoria portuguesa – bem como a figura simbólica de Mariana Alcoforado – revelando-se como um desígnio patriótico do chamado «século do nacionalismo português», particularmente visível no estado novo, necessário à afirmação e à identidade nacional revestindo-se de um carácter ideológico que serve os interesses da nação.

 

A Ópera deverá ser apresentada nos espaços do Claustro e Igreja do Convento dos Capuchos, sendo o público convidado a tornar-se conivente da vida conventual e da acção cénica que presencia.

 

 

 

COMPONENTE COMUNITÁRIA DO PROJECTO

Na matriz deste Projecto entendemos dever estar a interacção com a comunidade – que desejamos se aproprie dela, não apenas como usufrutuária mas como participante activa. Tal perspectiva de acção – reacção entre os artistas e a comunidade, discorrendo em torno de matérias históricas e sociológicas que são património colectivo, permitirá novas com / textualidades, em busca da autenticidade.

Pretende-se facilitar a participação de agentes culturais e indivíduos disponíveis para uma intervenção artística no domínio das artes preformativas, viabilizando-se o encontro de experiencias e saberes entre profissionais e amadores num trabalho de construção coletiva.

Promover a cooperação entre criadores “profissionais” e amadores motivados é não apenas garante de novas discursividades artísticas como também do envolvimento emocional / empático das comunidades com o produto da criação, proporcionando-lhe uma mais plena vivência e visibilidade, permitindo que se inscreva na comunidade como objecto “significante”.

São convocados a participar coralistas amadores, jovens cantores em início de carreira e aficionados do canto e do teatro musical (sem limite de idade – pretende-se um grupo bastante heterogéneo). As provas de admissão pretendem testar as competências vocais dos candidatos, mas também a sua plasticidade performativa. Os seleccionados deverão assumir o compromisso de participação em todas as formações e performances.

Deverão ainda ser recrutadas, em Escolas de Música, algumas (seis a oito) jovens estudantes de canto para o papel de Soror Mariana “menina” e o grupo de Noviças.

Estudantes de audiovisuais e de fotografia (AE Francisco Simões, AE Ruy Luís Gomes e Escola Fernão Mendes Pinto) foram convocados a apresentar um trabalho sobre a criação da ópera Soror Mariana. Este trabalho pressupõe o acompanhamento e registo (vídeo, fotográfico) das várias etapas do projecto e da sua apresentação final.

Estes jovens serão também convidados a participar na elaboração de conteúdos audiovisuais e de design gráfico da própria produção.

Convidam-se, ainda, estudantes do ensino artístico – design – na co-criação da cenografia, figurinos e adereços da produção operática. A execução destes materiais deverá ser realizada em contexto escolar ou – em alternativa – em atelier a criar no próprio Convento dos Capuchos.

Um outro grupo de estudantes do Curso Profissional de Organização de Eventos colaborará em tarefas de “frente de sala”, apoio aos artistas e divulgação.

 

Propomos ainda um trabalho, com o apoio de professores de várias valências, de investigação e preparação de material expositivo inédito sobre a relação “improvável” das Cartas Portuguesas com as Novas cartas Portuguesas.

 

CARTAS PORTUGUESAS DE MARIANA ALCOFORADO E AS NOVAS CARTAS PORTUGUESAS

Sugere-se a revisitação, em [com]texto, destas obras fundamentais e paradoxalmente geminadas da nossa literatura. Serão expostos, com recurso a suportes físicos e áudio-visuais, exemplares de várias edições das obras e abundante informação iconográfica sobre as autoras e o seu tempo.

 

Novas Cartas Portuguesas (NCP) é uma obra literária publicada conjuntamente pelas escritoras portuguesas Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa em 1972. As autoras ficariam conhecidas internacionalmente como “as três Marias” (The Three Marias tendo sido mesmo o título da edição original do livro em inglês). Nos anos setenta, a publicação de NCP assumiu um papel central na queda da ditadura dirigida por Marcelo Caetano, uma figura apenas superficialmente mais liberal que o seu antecessor António de Oliveira Salazar. O livro revelou ao mundo a existência de situações discriminatórias agudas em Portugal, relacionadas com a repressão ditatorial, o poder do patriarcado católico e a condição da mulher (casamento, maternidade, sexualidade feminina). NCP denunciou também as injustiças da guerra colonial e as realidades dos portugueses enquanto colonialistas em África, emigrantes, refugiados ou exilados no mundo, e “retornados” em Portugal.

Algumas considerações sobre Novas cartas portuguesas (originalidade e actualidade):

  • Funde os géneros narrativo, poético e epistolar.
  • A diferença como uma afirmação da identidade – antecipando as mais recentes teorias feministas (ou emergentes dos Estudos Feministas, como a teoria queer) – é actual. Basta compararmos o termo – e a insípida prática – ‘igualdade de género’ com ‘identidade de género’ muito mais de acordo com o pensar das autoras (apesar de admitirem a igualdade como o passo – antes – necessário).
  • Denunciam a guerra colonial, o sistema judicial, a emigração, a violência, a situação social das mulheres.

 

A Exposição “Diário de uma produção – Ópera Soror Mariana de Alcoforado no Convento dos Capuchos, 2017” será apresentada a 8 março (dia internacional da Mulher) e permanecerá patente ao público até 29 de Outubro.