Soror Mariana | Amílcar Vasques-Dias

Foi apresentada, em estreia absoluta, uma nova ópera do compositor Amílcar Vasques-Dias com libreto de Helena da Nóbrega. As primeiras apresentações ocorreram nos dias 16 e 17 de Junho e 02 de Julho de 2017, no Convento dos Capuchos, em Almada, tendo  a produção seguido pouco depois, a 8 de Julho, até Évora, no âmbito do Festival Artes à Rua.

Como Nasce uma Ópera

As “Cartas de Uma Freira Portuguesa” ou, simplesmente “Cartas Portuguesas” foram, pela primeira vez, publicadas em 1669.

Este romance epistolar pretendia apresentar as cartas originais contando a verdadeira história de uma freira que se apaixonou por um oficial francês, Noël Bouton, Marquis de Chamilly, mais tarde Marechal de França. A freira, desconhecida de início, seria mais tarde identificada como Mariana Alcoforado, nascida em Beja e filha de Francisco da Cunha Alcoforado.

É incerta a sua história como também não é certo quem escreveu as cartas. Provavelmente, terão sido obra de Gabriel de Guillerages, diplomata e jornalista francês, numa elaborada fraude literária perpetrada sobre um público incauto.

Estão escritas no estilo epistolar de Ovídio e de Abelardo e Heloísa.

Mas talvez haja uma história verdadeira por detrás das palavras de Mariana. A verdade é que o drama se “tornou viral” – as cartas são tão populares que o termo “portugaise” passou a designar uma “carta de amor apaixonada” na França setecentista.

Tão populares que são lidas ainda hoje. Reais ou falsas, contam uma história de amor, universal.

Sinopse

Mariana Alcoforado é conhecida como a freira que escreveu – ou não* – uma série de cartas ao tenente francês Chamilly – que se tornaram famosas em toda a Europa ainda em sua vida e sem que ela o soubesse – depois de com ele ter vivido uma relação amorosa – ou não* –  enquanto freira no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja. Viviam-se os conturbados anos da restauração da independência de Portugal, em que a região do Alentejo foi particularmente protagonista, pois aí se disputaram importantes batalhas para além de todo o tipo de resoluções e conjuras… A causa portuguesa tinha apoio militar de diferentes reinos – também com problemas territoriais e sucessórios, e em lutas com Castela. Não é, pois, de estranhar que homens estrangeiros se encontrassem no Alentejo e que os conventos não fossem somente locais de viver a fé, mas também locais onde famílias nobres e ricas colocavam as suas filhas.

Esta ópera é uma representação dramática cantada dos amores reais ou fictícios da freira portuguesa e do oficial francês. Mariana Alcoforado é uma jovem mulher, freira, presa às circunstâncias do seu tempo mas capaz de transgredir as regras conventuais (obediência, clausura e castidade).

O envolvimento amoroso é para Mariana como uma ‘causa’ capaz de mudar o sentir da sua vida inútil e solitária. Assim ela o viveu e sentiu. A decepção e desespero que se seguem ao seu abandono e esquecimento, – traduzidas de maneira tão exasperada, comovente e excessiva nas Cartas Portuguesas – são acontecimentos pessoais muito penosos porque Mariana não dispõe de recursos para modificar o decorrer da sua vida – ‘isso’ sim – o mais dramático neste libreto.

Mariana Alcoforado (1640-1723) terá entrado no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, aos 12 anos, professado aos 16 e lá morreu aos 83 anos.

 

*Obra anónima, as Cartas Portuguesas supostamente traduzidas no século XVII em Paris a partir de originais portugueses – desde sempre desconhecidos – só muito mais tarde atribuídas por alguns à freira de Beja, tornaram-se uma obra de referência da literatura francesa, e um caso singular e dos mais curiosos na história literária pelas duvidas que levanta quanto à sua autoria.  Esta obra traduzida será objeto de apropriação para a autoria portuguesa – bem como a figura simbólica de Mariana Alcoforado – revelando-se como um desígnio patriótico do chamado «século do nacionalismo português», particularmente visível no estado novo, necessário à afirmação e à identidade nacional revestindo-se de um carácter ideológico que serve os interesses da nação.

Componente comunitária do projecto

Na matriz deste Projecto entendemos dever estar a interacção com a comunidade – que desejamos se aproprie dela, não apenas como usufrutuária mas como participante activa.

Pretendeu-se facilitar a participação de agentes culturais e indivíduos disponíveis para uma intervenção artística no domínio das artes performativas, viabilizando-se o encontro de experiencias e saberes entre profissionais e amadores num trabalho de construção coletiva.

Promover a cooperação entre criadores “profissionais” e amadores motivados foi não apenas garante de novas discursividades artísticas como também do envolvimento emocional/empático das comunidades com o produto da criação, tendo-lhe proporcionado uma mais plena vivência e visibilidade.

Foram convocados a participar coralistas amadores, jovens cantores em início de carreira e aficionados do canto e do teatro musical. Foram recrutadas, em Escolas de Música, jovens estudantes de canto para o papel de Soror Mariana “menina” e o grupo de Noviças. Estudantes de audiovisuais e de fotografia foram convocados a apresentar um trabalho sobre a criação da ópera Soror Mariana. Convidaram-se, ainda, estudantes do ensino artístico para a co-criação da cenografia, figurinos e adereços da produção operática.

Todo este processo foi captado no documentário pudesse eu viver de luz, para o qual deixamos ligação abaixo:

 

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